5 de março de 2009

A caneta pra retroprojetor

— Rola, rola pra debaixo do lápis que ele vem aí!

— Sai lapiseira! Deixa eu passar! — disse o marcador Azul.

— Pombas! Cadê o meu marcador, o Preto? — João! Você pegou a droga do meu marcador?

— Não Tonho! Eu tenho o marcador Vermelho, serve?

— Ah! Me dá essa droga mesmo!

Isso acontece todo dia! Não é fácil ser um marcador de CDs e DVDs, em uma fábrica. E eu vim parar aqui por engano. Ah! Meu nome é Caneta Marcador Preto, mas aqui na fábrica o pessoal me conhece como Pretão, por eu ser daqueles marcadores mais robustos.

Na verdade, me compraram para fazer parte do material escolar de uma aluna de curso superior. Fui utilizado algumas vezes para escrever em folha de transparência, dessas para retroprojetor. Já até escreveram em CD e DVD comigo, mas eram trabalhos de faculdade. Sempre foram atividades nobres para um marcador.

Um dia, sem querer — ou de propósito, não sei —, fui pego pelo irmão da garota, o tal de Tonho. Fui parar num quarto cheio de aparelhos eletrônicos. Fiquei sabendo depois que eram gravadores de CDs e DVDs. Bem, fui feito para escrever e acabei me conformando com o novo local.

Com o passar dos dias, fui ouvindo umas conversas que não estavam me agradando. Andavam dizendo que era uma fábrica de produtos piratas. Pensei alto, ainda que ninguém tenha escutado: “Tinha que acontecer comigo!”

O marcador Vermelho achava que não tinha nada demais, já que todo mundo copia todo mundo. Até nós — dizia ele —, os marcadores, já fomos pirateados.

— Mas Vermelho, isso não quer dizer que esteja certo. Nós estamos participando de uma atividade criminosa!

— Que criminosa o quê, Verde! O Tonho usa esse dinheiro pra cuidar da família. Afinal ele tem que sobreviver.

— Ah! Deixa de conversa. Isso aqui deve ser só fachada! A “coisa” deve ser bem maior! — Outro dia mesmo, fui com esse Tonho até um galpão enorme, cheio de caixas de madeira. Mas foi só o que eu consegui ver.

— Todo dia , à noite, eu saio com o pessoal para entregar os discos e me usam para escrever na embalagem. Algumas vezes as embalagens são diferentes, mas escrevem um código que desconheço — disse o Preto Fino.

E cada um tinha uma história pra contar. Uma mais cabeluda que a outra. E Vermelho sempre tinha uma defesa, uma outra história pra contar. Alguns, até ficaram do lado do Vermelho, concordando com ele.

Dois dias depois, o Vermelho chegou muito assustado, dizendo que precisava conversar comigo. Fomos pra trás dos livros.

Preto, lembra que eu contei que saía, algumas vezes, pra fazer umas marcações diferentes.

Claro que lembro. Pra onde você foi dessa vez.

Ah! Não sei pra onde. O que sei é que me utilizaram muitas vezes pra escrever em um pacote branco. Escreviam “COCA”.

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